O sol ardia com força. Ana Lúcia pedalava com vigor sua bicicleta, aquela cujos únicos lugares silenciosos eram o sino — todo o resto rangia, chiava ou batia. O ritmo lento não era por falta de força, mas porque o pedal estava quebrado, exigindo que ela seguisse devagar e cautelosa pela alameda sombreada. De relance, alguém poderia pensar que era o início de um melodrama romântico.
Segundo a lógica desses enredos, a qualquer momento um carro luxuoso passaria veloz, assustando a protagonista e a derrubando ao chão, de onde surgiria um jovem rico e bonito, que se apaixonaria à primeira vista... (e aí se omitiriam dez mil palavras de clichês).
Nada disso aconteceu. Apenas se ouviu um “pchii”, e o pneu dianteiro de Ana Lúcia murchou. Ela retirou um pedaço de metal do pneu, olhou para o trecho deserto, onde não havia nem casa nem loja, e resignada, passou a empurrar a bicicleta, cabeça baixa, lamentando a escolha daquele trabalho de tutoria tão distante.
Nenhum drama de novela se manifestou pelo caminho: não apareceu nenhum jovem rico, nenhum magnata, nem sequer um carro. Por isso, Ana Lúcia concluiu que todos os enredos das novelas que lia eram pura fantasia.
Nesse momento, seu celular tocou, e a melodia vibrante do “Hino Internacional” ecoou. Ana Lúcia atendeu, quase sem fôlego: era sua melhor amiga Bruna.
— Alô, o que foi?
— O orientador vai chegar em meia hora, corre para cá!
— Estou numa estrada de terra, minha bicicleta quebrou, não consigo voltar! — reclamou Ana Lúcia.
— Com aquela sua bicicleta miserável!!! — a voz de Bruna explo