Meu avô já foi um adivinho no cais, e naquela época todo mundo dizia que o fim de um adivinho era o mais trágico: por revelar demais os segredos do céu, acabava condenado ao infortúnio dos “cinco males e três faltas”. Na velhice, não era por perder dinheiro e viver pouco, ou por ver a esposa partir e os filhos se dispersarem, ou então por ficar sem um braço e com a perna quebrada. Mas meu avô, durante toda a vida, nunca passou fome, nunca sofreu desgraça; na velhice tinha casa cheia de riqueza e filhos e netos em abundância. Ele até calculou sua própria longevidade uma vez, e o hexagrama indicava que aos quarenta anos ele deveria morrer afogado por uma calamidade de água e trovão. Mas ele já tinha mais de setenta anos e ainda era forte e vigoroso. Não foi porque ele lesse errado; era porque ele tinha uma habilidade especial — o “empréstimo da dívida yin”. Com esse método, podia tomar emprestado dinheiro, influências, fortuna e destino. Mas quem toma emprestado tem de pagar; se não paga, alguém vem cobrar a dívida. Meu avô dizia: “Eu sou o fantasma que vem cobrar essa dívida.”
Há certas coisas nas quais não podemos deixar de acreditar.
Segundo minha mãe, desde pequeno fui uma criança muito obediente. Trabalhador, sensato e respeitador, mas com dificuldade para conversar e fazer amigos.
No entanto, tudo mudou quando, aos nove anos, quase me afoguei. Tornei-me outra pessoa: falava com lábia, mentia, roubava dinheiro dos parentes, aprendi a brigar e a apostar; nada lembrava o menino de antes.
No início, meus familiares não deram importância, achando que era apenas uma fase rebelde. Até que um dia, minha mãe me levou ao mercado na vila vizinha; lá encontramos um velho lunático que recolhia sucata.
Ao passarmos por ele, o velho me olhou fixamente, balançou a cabeça e disse: "Difícil resolver, esse menino já teve a alma tomada em setenta por cento, só lhe restam três suspiros antes da morte."
Minha mãe e eu não o conhecíamos. Mas, como ele não tirava os olhos de mim, minha mãe perguntou o que estava acontecendo.
O velho perguntou se, dois anos atrás, eu não havia quase me afogado, sendo salvo por alguém cujo signo era dragão.
Encontrei-o aos onze anos; o incidente do afogamento ocorrera dois anos antes. Lembro que era meu aniversário. Como não podíamos comprar bolo, pensei em pescar na pequena correnteza ao lado da vila, para que minha mãe fizesse peixe no jantar.
Ao abrir um buraco no gelo para pescar, vi no meio da correnteza uma pedra branca flutuando onde a água não estava congelada, seguindo devagar contra o fluxo.
Os mais velhos sabem: nunca se deve pegar objetos misteriosos que f