O jovem, com a alma transposta para o final do Período dos Reinos Combatentes, encontra-se em Qi, desde o nascimento alvo de dúvidas e insinuações veladas. Porém, tendo vivido duas vidas, possui o dom de enxergar almas errantes. Contudo, entre os Sete Estados, as “conquistas” dos Seis não passam de privilégios hereditários, bens dos poderosos. Pensava, pois, que nesta existência lhe seria quase impossível despedaçar o desprezo alheio, galgar honrarias, ser feito general ou nobre. Jamais imaginara que, por obra do acaso, assumiria o lugar de um morto e partiria para o Estado de Qin. “Glória, fama, riquezas—entro em Qin apenas por uma ‘conquista’!” ... Esta obra também é conhecida pelos títulos: 【Revelei tudo, Ying Zheng, sou um espião】 【General de Qin, natural de Qi】 【O Rei de Qi deseja matar alguém】 【O Rei de Qi desmaiou de raiva】
Sentado sobre uma pedra, observava os pequenos peixes nadando junto aos pés cobertos de calos e cicatrizes; aquela cena, de uma familiaridade estranha, ainda assim era digna de inveja.
Com delicadeza, mergulhou as mãos, marcadas por feridas, nas águas frescas, sentindo o toque sutil do frio deslizar pela pele.
Shui Yan fechou os olhos e se entregou ao silêncio, saboreando aquele instante.
Roubar meio dia de sossego: talvez fosse essa a frase que melhor traduzisse o íntimo de Shui Yan naquele momento.
Era precisamente neste dia, em cada ano, que as lembranças o assaltavam; por razões desconhecidas, há mais de dois mil anos, ele fora trazido a esta era.
No vasto fluxo da história, tornara-se uma criança deste tempo.
E num piscar de olhos, já haviam transcorrido catorze anos desde que chegara a este mundo!
Dia após dia, Shui Yan quase se esquecia do passado, por vezes duvidava se aquela “vida anterior” não passara de um sonho.
Somente ao ouvir menções vagas sobre os grandes acontecimentos do presente, recordava: não, aquilo não era um sonho.
Shui Yan — este é o nome que agora carrega, e não foi dado por pai ou mãe, tampouco pelos avós paternos.
Foi sua avó materna quem o nomeou.
O vilarejo chama-se Shui Cun, e “Yan” foi inspirado por sua avó no nome de seu ídolo, Qu Yuan, retirado do poema "Yuan You".
Ao pensar na avó, um sorriso involuntário suavizou as faces magras de Shui Yan.
Se a vinda para este mundo o pegou de surpresa, a presença da avó foi uma das poucas fontes de calor que encontrou.
Q