Com o ressurgimento da energia espiritual, a fé precede tudo. Alguns substituem o verdadeiro pelo falso, assumindo o papel do Pai Celestial, de Buda, de divindades imortais, na esperança de, por meio de falsas crenças, alcançarem o Dao. Outros narram suas próprias histórias, convictos de que são, eles mesmos, a lenda, e não carecem de se apropriar do brilho alheio. Há aqueles que se tornam estrelas, ídolos, sinônimos de tudo aquilo que se pode adorar; para eles, mesmo a mais ilusória devoção é ainda fé. E eis que Li Yi também retornou. Ele não renasceu: apenas voltou ao seu próprio corpo. Após viver cinco mil e setecentos anos, estava exausto, fatigado. Contemplara todas as glórias do mundo, subjugara todos os seres sob o céu, sem jamais encontrar igual; era um imortal entre os vivos, era Li Changsheng. Agora, porém, é Li Yi, e tudo o que deseja é deitar-se em paz. Contudo, novamente se torna, aos olhos do povo, o imortal. Desta vez, nada fez — apenas repousou silenciosamente em casa. Novo Evangelho, Grande Sutra do Trovão, Autobiografia do Deus da Espada, Memórias de Tianxue, Memórias de Qingxuan... Inúmeros feitos, redigidos pelos mais poderosos, convergem sempre para o mesmo desfecho: diante do imortal Li Changsheng. Não importa o quão genial ou extraordinário sejam, todos acabam por estagnar diante dele. Li Yi: Os feitos de Li Changsheng, o que têm a ver comigo, Li Yi?
Yucheng, Primeiro Hospital Municipal.
No início do outono, o sul não ostenta o desamparo das terras do norte; as folhas no alto das árvores ainda reluzem em verde exuberante.
Zhao Si desceu do táxi. Neste hospital de uma cidadezinha esquecida, o prédio era ridiculamente pequeno, e o estacionamento nada mais era que o espaço vazio entre o edifício de internação e o ambulatório.
Esfregou as mãos, tentando dissipar o frio que se agarrava à pele. Adentrar o edifício de internação fazia-o tremer ainda mais; a ausência de calefação no sul era, para ele, o obstáculo mais difícil de superar. Embora a friagem não fosse suficientemente cortante para matar, como no norte, o ambiente úmido e gélido fazia-o sentir-se submerso em água.
Talvez fosse isso que chamam de ataque mágico.
— Xiao Si, Xiao Si, por aqui! — chamou um homem de meia-idade, acenando-lhe. A pele era escura e áspera, e as rugas na face desenhavam sulcos, como as ravinas do planalto de Loess. As roupas, remendadas e sujas de cimento, denunciavam o ofício de operário. Sua expressão carregava uma timidez persistente, difícil de dissipar.
Aquele era Li Xingguo, um trabalhador rural comum, desses que se veem por toda parte, e fora, em tempos idos, o professor de Zhao Si no ensino fundamental.
Seu filho chamava-se Li Yi. Dez anos antes, fora atropelado por uma bicicleta elétrica ilegalmente modificada, que, devido à velocidade excessiva, deixou Li Yi em estado vegetativo. O condutor, ainda mais infeliz, morreu imediatamente.
Como o outro era um veículo não motorizado, a morte